Nasci no dia 14 de Dezembro de 1933, numa pequena aldeia chamada de Casal da Areia, freguesia de Salir de Matos, concelho de Caldas da Rainha. Ao tempo, ainda não havia creches nem jardins de infância. À semelhança de outras parturientes, mal minha mãe se refez do parto, começou logo a levar-me para o campo, num cesto de verga, onde me aconchegava ao abrigo das árvores enquanto ajudava meu pai nas tarefas agrícolas. Os chilreios dos passarinhos foram dos primeiros sons que estimularam o meu aparelho auditivo.
Aos cinco anos fui para a escola de onde saí aos nove e fui logo trabalhar para o campo. Como todos os rapazes saudáveis do meu tempo, aos vinte anos fui para a tropa. Pouco depois, o meu desejo de descoberta e aventura levou-me até Macau. Aí, em quatro anos concluí o curso liceal que era de sete, após o que regressei, então com o posto de furriel do quadro permanente do exército. Era minha intenção ir para Coimbra estudar medicina, em vez disso, fui destacado para o Norte de Angola, onde, entretanto tinha rebentado a guerra. Depois eram dois anos lá e uns meses cá. Dos treze anos de guerra colonial tenho oito no meu activo. Foi o nosso cansaço daquela guerra sem sentido que tornou possível o 25 de Abril.
Uma vez terminada a guerra, logo que reuni condições para tal, desliguei-me do serviço militar e regressei às origens, à terra que me viu crescer, que é, por norma, sempre aquela que mais amamos.
Porque aconteceu pintar quadros
Desde quase que me conheço, sempre tive certo gosto e algum
jeito para o desenho. As moças da minha aldeia pediam-me para desenhar as
letras iniciais dos seus nomes para bordarem nos seus enxovais. Adorava
reproduzir com a mão aquilo que os meus olhos viam e a minha mente imaginava.
Sem meios para frequentar uma escola apropriada, visitava com frequência o
Museu Malhoa, onde o porteiro, homem bondoso, por conhecer o propósito das
minhas visitas, me deixava entrar "à borla". Aí procurava descobrir
como as pinturas eram feitas. Estudava sobretudo os retratos de Columbano e as
paisagens de Silva Porto. Assim, a pouco e pouco, comecei "borrando"
uns papeis e umas telas. Aproveitava todo o tempo disponível que era pouco mais
do que os dias de chuva e os domingos.
Eis algumas aguarelas sobreviventes dessa época, década de 1940.........![]()
Um quadro que me redimiu dum pecado que não
cometi......................,,,,![]()
Quando fui para Macau era minha intenção aprofundar os meus
conhecimentos de pintura, mas sofri uma grande desilusão. Aí, alguém com
pretensões de ser sabido na matéria me disse que a minha pintura era "pirosa" e
desactualizada. Durante os quase cinco anos que lá permaneci, apenas pintei um
quadro e para isso houve uma razão muito especial. Se quiser conhecê-la,
clique nesta seta...................![]()
Durante os anos que durou a guerra colonial, pouca disposição e inspiração tive para pintar. Quase tudo o que fiz, nesse domínio, por não me agradar, acabei por destruir.
Quando regressei à terra que me viu crescer, constatei com
muita mágoa, que muitas das aves selvagens que eu conhecera na minha infância
tinham desaparecido. Procurei descobrir as razões dessa tragédia e cheguei à
conclusão que ela era devida aos pesticidas agrícolas e à acção criminosa
de muitos caçadores. Jurei, então, a mim mesmo dedicar o resto dos meus dias
à defesa dessas aves. Utilizando a linguagem falada, escrita e pictórica tenho
vindo a procurar sensibilizar os que me rodeiam para a adesão a esta causa e
aqui já são palpáveis resultados positivos. A pesar das ameaças a
coluna vem engrossando. Porque já pisei o limiar do ocaso da vida, tenho plena
consciência de que já não me restarão muitos mais anos para prosseguir nesta
luta. Todavia, paira em mim a esperança de que a semente ficará. E na vida,
tal como na Natureza, tudo se renova com a semente.....Regressar à página
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