Bernardim Ribeiro (1480 - 1530)
"...Não tardou muito que, estando eu assi cuidando, sobre um verde ramo que per cima da água se estendia se veio pousar um rouxinol; e começou tão docemente cantar, que de todo me levou após si o meu sentido de ouvir. Ele cada vez crescia mais em seus queixumes: cada hora parecia que, como cansado, queria acabar; senão quando tornava como que começava então. Triste da avezinha,que, estando assi queixando, não sei como se caíu morta sobre a água! Caindo por entre as ramas, muitas folhas caíram também com ela. E pareceu aquelo sinal de pesar naquele arvoredo, de caso tão desastrado! Levava-a após a água, e as folhas após elas. Quisera-a eu ir tornar, mas pola corrente que ali fazia grande,e polo mato que dali pera baixo acerca do rio logo estava, prestesmente se me alongou da vista. O coração me doeu tanto então, em ver tão asinha morto quem dantes tão pouco havia que vira estar cantando, que não pude ter as lágrimas..."

(Excerto da Novela Menina e Moça - A Morte do Rouxinol)